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quinta-feira, 20 de agosto de 2015

PERAS ou PÊRAS?


Com o Novo Acordo Ortográfico, assistimos a uma espécie de “E tudo o vento levou!” dos acentos diferenciadores. No entanto, no caso de hoje, temos de recuar a 1945 para termos um desfecho surpreendente para um bom número de utilizadores da língua portuguesa…
O Acordo Ortográfico de 1945 estipulava o “emprego do acento para distinguir formas homógrafas heterofónicas” como em “pêra, substantivo, e pera, preposição arcaica” e “pêro, substantivo, e pero, conjunção arcaica”.
No entanto, o mesmo AO45 era claro em relação aos plurais destas duas palavras: “o plural, peras, sem acento; (…) o plural, peros, também sem acento”.

CONCLUSÕES:
                                                                       PORTUGAL e BRASIL
SINGULAR
pêra (AO45)
pera (AO90)
PLURAL
peras (já era assim com o AO45 e manteve-se com o AO90)

Nota:
Com o AO90, desapareceram quase todos os acentos desambiguadores. Exceções:
Acentos obrigatórios
.pôr (para distinguir da preposição por)
.pôde (para não se confundir com o presente pode)
Acentos facultativos

.dêmos (para não se confundir com o pret. perfeito demos)
.amámos (para distinguir do presente amamos)*1
(No Brasil, já não eram usados)
.fôrma (para distinguir de forma, com o aberto)
(Acento abolido em 1945 em Portugal)
*1- Como todos os outros verbos da 1ª conjugação (terminação –ar).

Abraço.

ProfAP

domingo, 2 de agosto de 2015

Jorge Mendes teve um SUPER-CASAMENTO ou um SUPERCASAMENTO?


Embora não tenham sido as que mais anticorpos criaram, as mudanças mais profundas introduzidas pelo AO90 aconteceram na hifenização. Largas centenas de hífenes entregaram a alma ao criador sem deixar vestígios: autoestrada, copiloto, antissocial, pão de ló, rosa dos ventos, vinho de cheiro, canto do cisne, etc., etc.
Em sentido contrário, micro-ondas ganhou um hífen! Segundo o AO45 (Portugal) e o FO43 (Brasil), escrevia-se microondas.

E SUPER sofreu alguma alteração?
Este prefixo, como todos os terminados em r (inter e hiper), tinha uma regra especial segundo o AO45 e o FO43 que se mantém no AO90.

REGRA:
Com SUPER (e INTER e HIPER) há hífen antes de H e R:
super-homem, super-resistente
Mas: supermercado, superpolícia e supercasamento!

A terminar, que o mediático casal seja feliz!

ProfAP

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Os sub-21 portugueses foram ontem vice-campeões ou vicecampeões?

Tivesse a seleção portuguesa ganho ontem à Suécia e não se punha a questão do hífen…

Numa aplicação criativa das regras do hífen, ouvi há dias uma conversa em que alguém dizia que agora, com o Novo Acordo Ortográfico, já não havia hífenes…
Uma viagem pelos textos escritos em português na internet (empresas e particulares) deixa-nos de boca aberta, tal é a confusão que reina na hifenização. Por um lado, retiram-se a eito os hífenes; por outro, aglutina-se tudo.
Exemplos:
1. guarda chuva (AQUI); 2. guardachuva (AQUI); 3. guardassol (AQUI); 4. decreto lei (AQUI);  5. segundafeira (AQUI); 6. couveflor (AQUI); 7. bem vindo (AQUI); 8. bemvindo (AQUI); 9. benvindo (AQUI); 10. guardarroupa (AQUI); 11. vicecampeão (AQUI); 12. vice campeão (AQUI).

RESPOSTA:
Como em todos os exemplos apresentados,
devemos usar hífen em vice-campeões.
Notas:
1. O AO90 não altera a regra que determina que há sempre hífen a seguir a vice-. O mesmo se aplica aos prefixos ex- (com o sentido de cessamento), sota-, soto-, vizo- e quando o primeiro elemento é acentuado (pré-pago, pró-vida, pós-guerra, além-mar, aquém-fronteiras, recém-casado).
2. Veemente censura ao destacado jornal desportivo português Record que nos dá esta pérola: “Portugal vicecampeão europeu de juniores”.

Abraço.
ProfAP

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Como estamos de AO90 e de Vocabulário Ortográfico Comum?




Entrevista dada por Marisa Guião de Mendonça, diretora-executiva do Instituo Internacional da Língua Portuguesa, ao programa Fórum África (10/06/2015), da RTP África, a respeito do Vocabulário Ortográfico Comum, dos trabalhos com os vocabulários nacionais e da aplicação do Acordo Ortográfico.


NOTA: Quando o Vocabulário Ortográfico Comum foi disponibilizada online, entrei na plataforma e não fiquei particularmente agradado. Poucas indicações para poder pesquisar de forma rápida e eficaz, um conjunto de bandeiras dos países lusófonos com links, mas inconsequente, resultados da pesquisa não associados aos espaços geográficos em que são usados... Uma deceção, sobretudo se compararmos o VOC com o VOP do Portal da Língua Portuguesa. No entanto, como estavam previstos ajustamentos na plataforma até ao final de maio de 2015, um dias destes dias farei uma nova e muito minuciosa visita e partilharei aqui o resultado da avaliação.
Abraço.
ProfAP

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Alunos podem perder 5 valores nos exames por causa do AO90?


Embora seja a minha área de formação, estou afastado há algum tempo do mundo dos exames de Português. Sempre me pareceu especulativa a informação veiculada nos meios de comunicação de que a não aplicação das regras do A90 poderia custar aos alunos a perda de 5 valores. No entanto, não tendo dados objetivos, não comentei o assunto. Quando ontem consultava o Ciberdúvidas (AQUI), encontrei um artigo que contesta o que foi divulgado.

Erros ortográficos devido ao uso da antiga grafia
chegarão no máximo a 0,5 por cento na avaliação do 12.º ano
(…) nos critérios específicos de avaliação da prova de exame em apreço estão previstos descontos por aplicação de fatores de desvalorização no domínio da correção linguística até um máximo de 40 pontos. Dependendo da natureza de cada erro (ortografia, sintaxe, morfologia, impropriedade lexical), os descontos a aplicar podem corresponder a uma desvalorização de 1 ou de 2 pontos por erro (em 200 pontos).
Por um lado, é de salientar que o erro de ortografia diz respeito a apenas um dos diversos fatores de desvalorização previstos, dando origem ao desconto de 1 ponto. Por outro lado, tomando como valor de referência 200 mil entradas do Vocabulário Ortográfico do Português (VOP), a percentagem de palavras alteradas pelo AO em Portugal é de 1,56%. Importa referir que, se entre essas palavras existem algumas com elevado índice de frequência de uso (e.g. "ato", "atual", "direto", "exato", "objeto"), a maioria são palavras de uso restrito a registos especializados (técnicos e científicos), de baixo índice de frequência.
Considerando os dados apresentados, ainda que os alunos optem por não respeitar o AO, situação para cujas consequências estão devidamente alertados, em termos médios, a probabilidade de desvalorização por erros ortográficos devido ao uso da antiga grafia é de 0,6 pontos, ou seja, 1 ponto em 200, ou seja, ainda, 0,5% da cotação total da prova (o que contrasta de forma gritante com os 25% referidos na notícia publicada pelo Diário de Notícias). (…)
O Conselho Diretivo do IAVE, I.P.,
Lisboa, 12 de março de 2015

Fica partilhado o esclarecimento. Mas aquelas contas ali mesmo no final estão um pouco atabalhoadas… E devo dizer que se as notícias divulgadas me deixaram muitas dúvidas com o cenário de descontos até 5 valores (50 pontos), as contas do IAVE que concluem que a probabilidade de descontos não vai além de 1 ponto também me parecem uma versão light. Mas é apenas uma impressão. Onde está a verdade? Aí, não tenho dúvidas: no vinho!

Abraço.
ProfAP

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Sampaio da Nóvoa quer reavaliar Acordo Ortográfico…


COMENTÁRIO: Independentemente da consistência dos argumentos apresentados, as pessoas (mais ou menos mediáticas) e as instituições que são e sempre foram contra o AO têm do seu lado a coerência.
Quanto a Sampaio da Nóvoa, considerando que, enquanto reitor da Universidade de Lisboa, ninguém o ouviu manifestar publicamente o seu desacordo, fazê-lo agora na condição de candidato a um cargo público parece uma atitude oportunista. Pode até não ser, mas lá que parece, parece…

JORNAL DE NOTÍCIAS:

Sampaio da Nóvoa, que ao final da tarde desta segunda-feira, no Teatro Rivoli, no Porto, apresenta a carta de princípios da sua candidatura à Presidência da República, considerou na última noite, em Amarante, num debate sobre Educação, que o Acordo Ortográfico "deve ser reavaliado com muita determinação".

Admitindo que se trata de "um problema complicado", por causa dos acordos internacionais, mas defende que o AO deve ser reavaliado com muita determinação. "Na qualidade de candidato presidencial digo que esta questão tem de ser recolocada em cima da mesa dos debates com enorme cuidado, esperando que se consiga fazer uma avaliação do que aconteceu até agora e consigamos repor em novos moldes algumas orientações sobre esta matéria. É um problema que, na minha condição de Presidente da República, espero ajudar a resolver. O que está a acontecer não é bom para nada, inclusive para o fortalecimento dos laços entre os povos", justificou, Nóvoa, já depois de lembrar que na qualidade de reitor e de professor é contra o AO.
Convidado pela concelhia do PS para falar sobre "Uma Educação para o desenvolvimento", a conversa, por vontade da plateia, estava sempre a resvalar para as presidenciais. Um dos presentes quis saber, por exemplo, o que é que o candidato pensa sobre as questões fraturantes, ao que o candidato atirou de pronto com aquilo que disse ser a sua "matriz: liberdade", com o Estado a garantir a salvaguarda dos "direitos e garantias". O candidato também afirmou que quer para Portugal "um presidente ativo na cena internacional". "A última vez em tal aconteceu foi com Timor, e por obrigação". Sobre o assunto em debate, a Educação, Nóvoa lembrou que "num certo sentido" com o que temos: a escola (edifício) do século XIX e professores do século XX, não conseguimos ensinar alunos do século XXI.


Abraço.
ProfAP

sábado, 16 de maio de 2015

O Novo Acordo Ortográfico mexe com a sua horta ou jardim?

A espécie mais hifenizada cá da horta: o espinafre-da-Nova-Zelândia!

Começando por responder à pergunta, podemos dizer que sim, mas pouco…
Os vocábulos compostos que designam espécies não são referidos nem no Formulário de 1943 (Brasil) nem no Acordo de 1945 (Portugal). No entanto, a prática seguida era hifenizar a maior parte destas palavras, aplicando uma regra geral (Base 28 do AO45) de redação bem complicada:
Emprega-se o hífen nos compostos em que entram, foneticamente distintos (…), dois ou mais substantivos, ligados ou não por preposição ou outro elemento, um substantivo e um adjectivo, um adjectivo e um substantivo, dois adjectivos ou um adjectivo e um substantivo com valor adjectivo, uma forma verbal e um substantivo, duas formas verbais, ou ainda outras combinações de palavras, e em que o conjunto dos elementos, mantida a noção da composição, forma um sentido único ou uma aderência de sentidos.
A Base 46, 1º, do FO43, bem mais simples, ia no mesmo sentido: “Nas palavras compostas em que os elementos, com a sua acentuação própria, não conservam, considerados isoladamente, a sua significação, mas o conjunto constitui uma unidade semântica”.

Quanto ao Novo Acordo Ortográfico, introduz, na Base XV, nº 3, uma regra nova sem qualquer exceção: “Emprega-se o hífen nas palavras compostas que designam espécies botânicas e zoológicas, estejam ou não ligadas por preposição ou qualquer outro elemento”. Considerando os exemplos apresentados no texto, parece que todos os compostos nas áreas da botânica e da zoologia, designem ou não verdadeiras espécies e subespécies, são hifenizadas. Só assim se compreende a grafia feijão-verde (antes feijão verde).

CONCLUSÃO:
Usa-se sempre hífen em todas as palavras compostas que identificam plantas (ou animais).

Mas, embora a regra seja clara, os dicionários e o vocabulário do Portal da Língua Portuguesa continuam a não a aplicar de forma plena, ignorando espécies que fazem parte do nosso dia a dia ou apresentando-as de forma enviesada…
DESIGNAÇÕES
VOCABULÁRIO PORTAL DA LÍNGUA PORTUGUESA
DICIONÁRIO PRIBERAM
DICIONÁRIO
INFOPÉDIA
maçã-reineta
Está na entrada “reineta”…
Está na entrada “reineta”…
Está na entrada “reineta”…
pera-rocha
NÃO TEM
A entrada “rocha” não remete para a conhecida espécie…
NÃO TEM
A entrada “rocha” não remete para a conhecida espécie…
NÃO TEM
A entrada “rocha” não remete para a conhecida espécie…
pêssego-careca
NÃO TEM
Só regista pêssego…
SIM
Estranhamente também regista “pêssego careca” (sem hífen…)
SIM
 
pimenta-branca
NÃO TEM
Mas regista pimenta-preta
 
NÃO TEM
Regista apenas pimenta d’água, que não é uma espécie de pimenta…
NÃO TEM
Mas regista pimenta-preta
Nota: Faz tanto sentido, apresentar maçã-reineta na entrada “reineta”, como faria colocar peixe-espada na entrada “espada”…
O mesmo procedimento é seguido com a espécie pera-lambe-lhe-os-dedos (que já foi abundante na zona de Sintra e do Oeste e hoje está quase extinta), que é apresentada na entrada lambe-lhe-os-dedos nas fontes de consulta portuguesas. Consultando o Vocabulário da Academia Brasileira de Letras (que também regista pimenta-branca e maçã-reineta), lá está o verbete como deve ser: pera-lambe-lhe-os-dedos. Encontrei a mesma grafia no Dicionário de Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo, de…1913!

Conselho final: para pesquisar designações de espécies botânicas (e zoológicas), não perca tempo e vá diretamente ao instrumento de consulta mais completo e fiável e entre no Vocabulário da Academia Brasileira de Letras (em http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=23).

Abraço!
ProfAP